Artigos

Técnicas do “Coach” por Tim Gallwey

Todos nós possuímos habilidades que desejamos ter, só precisamos de alguém que nos ajude a fazê-las aflorar. Esse é o ponto de partida para o homem considerado o pai do coaching, Thimothy ou Tim Gallwey, como é mais conhecido. Segundo ele, o autoconhecimento, em parceria com uma fonte segura de estímulo – um técnico – é responsável pela construção da confiança pessoal e do crescimento profissional das pessoas.

O assunto surgiu por acaso, a partir das técnicas elaboradas por Gallwey, nos tempos em que ele ainda atuava nas quadras de tênis. Desse modo, o coaching ganhou o mundo quando Tim lançou seu livro The inner game of tennis (O jogo interno do tênis) – com mais de um milhão de cópias vendidas –, em 1973. Na publicação, as percepções do autor sobre o esporte ganhou adaptações a serem aplicadas às empresas, a partir do que foi considerada uma forma inovadora de ensinar.

Depois do coaching, o desenvolvimento do mundo corporativo começou a modificar. A partir do desenvolvimento dessa área de estudos, o coach – profissional que faz a consultoria – tira o foco apenas dos resultados e dos faturamentos das empresas e atua como um técnico, atendendo às necessidades com relação ao cumprimento de metas, desenvolvimento de habilidades, eliminação de obstáculos e soluções de problemas.

De acordo com a Sociedade Latino Americana de Coaching, esse mercado está tão aquecido que, desde 2007, a procura pela capacitação na área tem crescido cerca de 250% ao ano. Na mesma linha, a demanda das empresas por esse tipo de assessoria também ascendeu, aproximadamente, 180%. Dados da Internacional Coaching Federation (ICF-Brasil), mostram ainda que a atividade já é responsável pela movimentação de capital superior a R$ 20 milhões anuais.

Em 35 anos do que Gallwey chama de “jogo interno”, o pai do coaching assessorou inúmeras empresas de renome internacional, como AT&T, IBM, Apple, Coca-Cola, Anheuser Busch, Arco, GE, Harley-Davison entre outras; além de personalidades do esporte. Em passagem pelo Brasil, na semana passada, Gallwey esteve na Capital goiana para um workshop.

Tim concedeu entrevista ao Diário da Manhã e explicou pessoalmente seu ponto de vista a respeito do mercado do coaching dentro e fora do País, bem como os pontos decisivos de seu método do “jogo interno”. Confira, na íntegra, a entrevista exclusiva com o criador do conceito que deu origem a essa técnica atualmente buscada por grande parte das empresas ao redor do mundo.

Diário da Manhã (DM) – Em que consiste a teoria do jogo interior (The inner game)?

Thimothy Gallwey (Tim) – Eu acredito que existem vários tipos de jogos interiores diferentes, capazes de melhorar e refletir nos jogos exteriores que lhes são correspondentes. A verdade é que todos nós já possuímos boa parte das habilidades que desejamos ter, só precisamos de alguém que nos ajude a fazê-las aflorar. A forma mais eficiente para que isso aconteça é fazer com que a pessoa perceba suas qualidades e desenvolva confiança em si mesma e veja seus objetivos com clareza. Assim, ela passa a acessar mais suas potencialidades interiores e a diminuir a auto-interferência, muitas vezes causada pelo medo e pela dúvida em sua própria capacitação.

DM – Qual foi o ponto de partida para a elaboração do método?

Tim – Eu era professor, estava em férias e comecei a dar aulas de tênis, um esporte que sempre pratiquei. Foi nesse período que me dei conta de como o professor poderia interferir no aprendizado do aluno. A intromissão do coach (treinador, em inglês) pode ser tanto para o bem, levantando e estimulando o aprendiz; tanto para o mal, abrindo oportunidades para que ele mantenha um diálogo de insegurança consigo mesmo. Eu comecei a perceber, então, que muitas vezes os professores dão tantas instruções aos alunos, que eles se retraem com o excesso de informações. No tênis, por exemplo, um jogador profissional não pensa nas técnicas para acertar a bola, ele simplesmente acerta. Logo, o acesso de regras transmitidas é desnecessário. O importante nesse processo era despertar a percepção do aluno para si mesmo. Dessa forma, a elaboração da técnica foi baseada na ideia de que, quando prestamos atenção em nós mesmos, conseguimos nos melhorar. E, com o tempo, foi possível notar que isso vale para todos os ambientes.

DM – Quando o senhor percebeu que a técnica do jogo interior também se aplicava ao mundo corporativo?

Tim – De início eu não percebi a aplicação do método nos negócios, até porque eu não entendi quase nada sobre esse segmento. Ninguém falava em coaching e a técnica também não tinha essa concepção. Não havia livros sobre o assunto, estudos ou qualquer coisa parecida. Mas um dia, no final da década de 1970, enquanto eu estava dando aula de tênis para o presidente da AT&T – empresa norte-americana de telecomunicação –, ele me chamou para um almoço para conversar sobre a técnica. Foi nesse momento que comecei a sentir o potencial do método. Ele disse que havia gostado muito do conceito, especialmente porque o Inner Game tem muito a ver com mudanças, mas de um jeito oposto ao que as empresas costumavam a promover da época. O jogo interior não especifica o que você, como profissional, tem ou não que fazer. Ele pede para que as pessoas sejam mais conscientes de suas funções e estimula que as mudanças partam delas próprias. A técnica também faz com que a pessoas perceba o aprendizado enquanto trabalha, aumentando assim seu aproveitamento e rendimento profissional. Isso também reflete na maneira com que o funcionário passa a ver a empresa.

DM – Quais foram as empresas pioneiras a adotarem a técnica do jogo interior?

Tim – A primeira a perceber o potencial do método foi a AT&T, que me contratou para desenvolvimento de liderança. Também trabalhei por um tempo com outras áreas da empresa, como na escola de vendas, no setor técnico e até na parte de telefonia. Um outro caso, no início do sucesso da técnica, foi o do Dr. Alan Kay, responsável pela interface entre máquinas e pessoas, na Apple. Nessa, eu participei ajudando a elaborar projetos de interface, liderança, além de criar um ambiente de aprendizado para a formação interna de coaches (pessoas que realizam o coaching). Depois disso, vieram inúmeras outras, como a Coca-Cola, onde trabalhei no treinamento de gestores para que eles próprios aplicassem as premissas da técnica dentro do grupo. Ao longo dos últimos 35 anos, foram mais de 20 empresas que me convidaram, sem eu nunca precisar fazer marketing em torno do assunto. A percepção das vantagens do Inner Game eram percebidas pelos próprios executivos.

DM – Em que as empresas que adotam a técnica de coaching se diferenciam das que não a adotam?

Tim – Quando a empresa entra em contato com a técnica e a adota para o dia a dia, isso acaba sendo transmitido para o corpo de funcionários. Como o objetivo do método é investir nas pessoas e fazê-las sentir a necessidade de mudanças, o aprendizado dos profissionais, bem como seu desenvolvimento profissional e pessoal, também passa a ser preocupação da empresa. O foco, dessa maneira, deixa de ser restrito aos lucros e rendimentos. Quando os funcionários percebem essa atenção por parte do local onde trabalham, também começam a investir na empresa. As pessoas se sentem mais motivadas a produzir e apresentam performances muito melhores, se tornando uma vantagem competitiva para a própria empresa.

DM – Como o senhor tem percebido a adoção do coaching pelo mundo? Há diferenças na aplicação do método nos Países por onde o senhor passou ultimamente?

Tim – A técnica do coaching é perceptivelmente bem aceita em todos os lugares por onde passei e está em crescimento como área profissional. De forma geral, percebo que as empresas buscam sempre contratar pessoas competentes, mas somente algumas – as que adotam o coaching –, tem potencial para melhor aproveitar ou desenvolver essas habilidades esperadas dos funcionários. O que muda, no entanto, são os padrões de aplicação. Em algumas escolas, por exemplo, o coaching é ensinado de forma mecânica, como se seguissem o passo-a-passo de uma receita. Mas, em todos os lugares há um consenso de que a aplicação eficiente do processo precisa ser baseada em muitas perguntas. Eu pude perceber também que muitas formas de aplicação entram em choque quando o assunto é se o coach deve ou não apresentar sua opinião pessoal à pessoa que busca a consultoria. Mas, independente da parte do mundo em que estivermos, a linha de coaching se trabalha o jogo interior é unânime nesse sentido: as pessoas que buscam ajuda devem ser capazes de elaborar as próprias habilidades e pensamentos, sem qualquer interferência. Somente assim é que acreditamos que esse profissional se tornará confiante e independente.

DM – Como o senhor percebe o coaching no Brasil?

Tim – A experiência que tive com os profissionais brasileiros do coaching é pelo contato que fiz por meio de workshops. No entanto, pude perceber que eles têm mentes e corações abertos à aprendizagem, muito mais que em qualquer parte do mundo que já conheci. Aqui o coaching está se tornando uma profissão altamente reconhecida e o mercado, consequentemente, também tem se aquecido. Acredito que, até por isso, percebo uma busca intensa por novidades no setor, mesmo por parte de pessoas que já são certificadas na técnica. Pude perceber que, mesmo com treinamentos e aplicações diferentes, todos encontram na técnica do Inner Game a essência do coaching, que é a prática da forma mais simples possível. E é essa simplicidade que faz esse setor ser tão gratificante, uma vez que a premissa do coaching é fazer com que o ser humano seja respeitado pelo seu estado de humanidade.

Fonte: DM

Publicado na categoria: Artigos Tags , , ,

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *